O Cotidiano: Janelas Fechadas

Resolvo dar um passeio pela cidade. Tomar um sol sertanejo nas ventas, nesta manhã cearense. Dez minutos depois e quero mesmo é puxar prosa com um cabra qualquer. Nem que me custe uma cachaça, que na torre da matriz já se acusam as dez da matina. Ou entro na igreja pruma reza chuva para apagar minhas poeiras? Mas dona Clarinda, sentada nos seus 82 anos de cadeira de balanço em frente a casa ao lado da igreja, me revela que não dá pra rezar não. A porta está fechada senão roubam tudo. Até a esperança, dona Clarinda? Avisa que já não pode ver. Perdeu muito pro mundo: a visão pra catarata, a vida nos caminhos e o marido pruma bala nos peito. Coisa antiga, história de 62 anos atrás. Assunto de vingança por causo de uma morte que ele fez naquela mesma noite. Coisa de fuxico, fofoca do povo miúdo resolvida na bala e lavado no sangue.

Eu já tô aos pés do balanço de dona Clarinda, me abençoando no escuro dos seus olhos, onde já não cabe tanto viver. É muita coisa enfiada zóio adentro. Não precisa ver mais nada. Já sabe tudo. É isso que deixou ela cega? Foi não! As janelas da alma de dona Clarinda estão cerradas como a porta da igreja é pra não roubarem a última coisa que lhe sobrou, o filho Antonio, de 69 anos. A obrigação do menino era só a de crescer e vingar o pai. Devolver o chumbo aos desafetos.

Dona Clarinda percebe que apagar a luz é a única forma aceitável de romper com essa vingança maluca. Vai se deixando cegar pela abençoada catarata e agora, ali sentada ao balanço, vê o mundo, crendo que talvez ele tarde um tantinho mais para finar-se. Quiçá só quando ela se deitar no campo santo, já cansada dos dias, a se proteger por completo com a coberta de terra sertaneja, o filho sentindo-se liberado, vá ao encontro de outros dois velhinhos para entregar-lhes o devido há tantos anos. Mas aí o mundo terá sobrevivido um cadinho mais, adiada a barbárie dessa vingança.

É isso que o ranger do balanço de dona Clarinda proclama nesse sol do meio do dia, que dá pra empurrar a última cena, simplesmente lacrando os olhos e balançando o corpo ao lado da matriz.

A bênção minha vó, que vou fazer rastro na areia.

Áudio: trabalhos técnicos de Élson Ferreira da Silva; ambiência sonora de Marta Catunda.

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