O ENREDADO DA GAROTINHA.

Nesses tempos de violência e barbárie, pessoas que tramam delicada e suavemente, podem ser as mais perigosas, pois nos envolvem desprevenidos.

Arquivo pessoal.

Eu já tinha visto ela umas duas ou três vezes, mas nem prestei muita atenção, coisas do trabalho. Você encontra um monte de pessoas que vão topando e destopando, vindo e indo e você nem presta atenção, mas naquele dia foi diferente. Ela veio perguntando o que eu estava fazendo, ficou por ali. Acabamos estabelecendo o compromisso de nos cumprimentar sempre que nos vemos. E eu passei a prestar atenção nela. Chamava atenção um jeito meio displicente, mas atraente ao mesmo tempo. Fiquei vendo com quem conversava, o que aprontava. Bom, descobri que é uma garota interessante, que tem uma tática que repete com todos. Nem sei se ela sabe disso, mas usa sempre o mesmo expediente. Chega com um sorrisinho encantador, emoldurado num rostinho aconchegante, aceso com dois olhinhos elétricos, penetrantes. Pensei que são olhinhos de led, de tão iluminadinhos. Ela se move pouco, só os olhinhos e o sorriso. Fica ali observando a pessoa, imóvel, tal qual uma aranha no centro da teia. Daí ela vai soltando as perguntinhas dela, querendo saber sobre você. Essas perguntinhas funcionam como fios que de modo aconchegante, macio, vão envolvendo seu corpo, cerzindo sua vontade, amarrando seus sentimentos. A vítima sente um quentinho, um aconchego, mas também surge um amedrontamento. Aí ela se recolhe pro centro da teia, quietinha. A pessoa percebe que consegue se movimentar, embora já com um pouco de dificuldade, o pensamento meio preso nela, mas nada agressivo. Aos poucos se conforma e fica tranquilo, relaxa. Aí ela volta. Mais uns papinhos, mais uns fiozinhos e vai apertando, acochando o nó. Quando o vivente vê, está todo enredado, igual uma mosca presa na teia. Aí não tem mais jeito, tá fisgado, e ela, muito macia, sempre com o sorrisinho pronto e meigo, vai movimentando os fios quase invisíveis, manobrando os sentimentos, os pensamentos, as vontades e, pronto, mais um personagem pro seu teatrinho de marionetes.

É amigo, nesses tempos de agressividade, de violência, de imposição, um bichinho desses é muito perigoso. Pois não estamos prestando atenção às gentilezas, aos carinhos, às falas mansas, mas elas podem aprisionar mais do que um par de algemas. E quando você for reclamar dessa trama toda, vai ganhar um beijinho na bochecha, um tapinha nas costas e um “relaxa aí meu, você tá é tenso”.

Áudio: Trabalhos técnicos de Élson Ferreira da Silva.

Ambiências Sonoras de Marta Catunda, com seu arquivo pessoal e participação especial do piano de Fernando Moura.

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