SEU JÚLIO, O BARBEIRO DO ONTEM.

Seu Júlio encontra motivação para os seus dias de aposentadoria e reflete sobre o sentido da vida, que ele foi aparando na profissão de barbeiro.

Coloquei na cabeça de comprar uma cadeira destas de barbeiro. Sabe, daquelas antigas. Depois de meses de procura, descobri o seu Júlio. Um velhotinho que está prestes a abandonar as tesouras. O seu Júlio tem uma cadeira da hora. Chique.

Ele avisou que sexta-feira vai ser o último dia de batente. Já está aposentado há um século. Aí ele disse: “é seu moço, pra comida e remédio a aposentadoria quase que dá. A gente vai levando”. Eu, besta que sou, caí na bobagem de perguntar o porquê de sexta-feira ser o último expediente. Por que não o mês que vem? Ou o ano passado? Por que justo nesta sexta-feira? O homem passou 53 anos na tesoura e resolve parar justo nesta sexta. Vai perder o movimento do sábado. Aí o seu Júlio explicou que passou mais de 50 anos em naquela cadeira, cortando cabelos e mosqueando na cabeça dos fregueses, pensando na vida. O que o homem buscou neste tempo todo foi entender o que é este viver. Confessou que, principalmente nos últimos anos, queria descobrir também para onde vamos no final de tudo.

Bom, agora o filósofo disfarçado de barbeiro já tem as respostas. O significado da vida e pra onde vamos depois de “abotoar o paletó”. Ó ouvinte, olhe que isto não é pouca coisa.

Aí ele foi desfiando sem economizar. É, quem já está velhinho não tem tempo e não se pode poupar o que não se tem.  Foi dizendo: “a vida, esta descobri que o sentido que tem é o de não ter sentido algum. É só o miudinho das coisas que se vai vivendo todo dia. E pra onde vamos depois disto tudo? Tanto faz. Pra onde vamos não vai mudar em nada o que somos e como vivemos agora. Não mata a minha fome, nem diminui a dor dos meus dedos entrevados de tanta tesoura e navalha”. E aí veio o golpe final. Ele disse: “resolvi viver cada instante como se ele não tivesse a menor importância. Vou cuidar dos passarinhos, só isto”.

O homem falou isto com tanta certeza, com tal tranqüilidade, que nem consegui questionar. A coisa já estava resolvida na cabeça dele. É alguém que está em paz. Me nasceu uma invejazinha. Aí só consegui perguntar foi o porquê afinal de ser sexta-feira o seu último dia de trabalho. Simples. No final de semana chegam os oito canarinhos que seu Júlio comprou.

É, o mais importante da vida do seu Júlio será manter as gaiolas limpas, os cantorzinhos alimentados e tirar um cochilo depois do almoço ouvindo o canto dos bichinhos. Tô pensando, será que este aí já não foi pro céu antes de morrer?

Áudio: trabalhos técnicos de Élson Ferreira da Silva; ambiência sonora, execução e arquivos de Marta Catunda.

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