A ALQUIMIA DA COZINHA

O humano é um ser capaz de transformar a sua realidade e a realidade da natureza, conforme suas convicções e visões de mundo.

As pessoas preferem comprar comida pronta, comer fora.  Eu gosto mesmo de cozinhar. Estava preparando um risotinho e pensando nisto, embalado num cálice de vinho pra animar as ideias. No fundo acho que tem algo de criação em cozinhar. É preciso partir do nada. Movimentar o desejo, para saber o que se quer cozinhar. Se você vai a um restaurante, você é privado deste desejar. Você vê as opções e escolhe a comida que alguém inventou que desejava ter preparado pra você. Cozinhando, depois de desejar, você precisa imaginar o prato, os acompanhamentos, os temperos. E até quem é que vai comer com você. Claro, por que se é alguém que fala muito, é melhor lhe dar algo que tenha que mastigar bastante. E usar cominho no tempero, que deixa a pessoa mais quieta. Nunca usar canela pra quem é falante. Senão, haja ouvidos.

Mas aí vem a parte melhor. Você recolhe uma variedade de ingredientes. Alguns impossíveis de engolir, inclusive. Como pimenta ou mandioca crua. Então você vai alterando cada um destes ingredientes, misturando-os, cozendo-os, preparando cada um a seu modo. No final, você transformou aquilo tudo em um prato. Não é assim que chamamos? Uma coisa bonita, com uma consistência legal, um aroma tentador, uma combinação de cores magnífica. Está pronto! Como um alquimista, o cozinheiro tem agora para oferecer aos convidados e aos seus sentidos, uma coisa nova, algo que ele criou. Ocorreu uma transformação da natureza. Algo que era raiz, que era folha, que era cereal ou carne. . . transformado em uma maravilha de comida. E que tem um poder sobrenatural de, primeiramente, estimular todos os sentidos, causar alegria. E, depois da refeição, é capaz de provocar sensações opostas. Um certo entorpecimento do corpo, uma tristeza por ter acabado o espaço pra mais uma bocada daquela sobremesa divina. Até sonolência. É isto, cozinhar é um poder sobre a natureza. E abrimos mão dele pra comer um grude mal preparado, num restaurante emporcalhado. Mau negócio. Muito mau negócio.

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