SÓ A VERDADE.

Os meus melhores textos não são os que você ouviu. São aqueles que rasguei ainda no dia em que os escrevi.


Grafite em escola municipal de Marcolândia, PI.

Encontro um ouvinte no supermercado, então ele comete o sacrilégio de perguntar se o que sai aqui na coluna é tudo verdade. E agora?

Afinal, preciso deixar claro que cada texto que produzo é só uma autoritária sequencia de letras que vai formando frases que forçadamente alinhadas pela minha vontade, acabam num texto. A verdade, fica sentada lá de longe, só assistindo a esse parto forçado.

Cada texto é um ato de esconder-me, de transferir pros textos os pecados que se penduram nos cantos dos meus olhos, tentando ocultar-se do mundo, certos de que outros curiosos olhos não os irão vasculhar, não poderão decifrá-los.

Cada texto, no dia seguinte já é um morto antigo. Um mumificado egípcio que não tem nada a dizer de ontem que caiba na novidade do hoje.

Mas o texto mais repugnante é aquele em que não consegui esconder-me, não pude mentir. A verdade, qual um cérebro de cadáver, é a primeira a decompor-se, apressada em assumir sua pútrida natureza. A mentira não. A mentira disfarça, perfuma-se. A verdade fede. Por isso a mentira sempre é mais linda; o mentiroso, mais aceito, mais sociável.

Uma mentira sincera, proposital, é uma musa, uma deusa que nos proporciona o éden.

E o melhor texto é uma descrição de sombras. Um jogo. Esconde muito, mostra o que não é o real. Por outro lado, aguça o interesse, atrai o incauto, o imprecatado leitor. Desperta uma sede de acontecimentos irreais, como se fossem verdadeiros, honestos e justos. Sabidamente real por ter sido inventado pelo escritor, este produtor de sinceras mentiras.

Você pode mentir de muitas formas, mas a pior de todas é quando você diz a verdade, nua e crua, ocultando a alma dos fatos, isso já disse o mestre Onetti.

Por isso, meus melhores textos não são os que você ouviu. Pois são aqueles que rasguei ainda no dia em que os escrevi.

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