A LAMPARINA INSONE.

radio antigo azul

O silêncio cresce, se fortalece . . . Silêncio agourento. É a gestação de um mau momento. Uma notícia ruim vem ao fim do silêncio.


Findo o dia barulhento, a noite quieta. Pois o silêncio está espesso por demais. Então fecho os olhos num movimento brusco; quase consigo agarrar esta ausência opressora.

Apenas um som abafado de relógio a me importunar, frio, insensível . . . maquinando contra a vida. Acendo a luz e vou encontrá-lo no armário. Um relógio antigo de pulseira estraçalhada. Embora, sem interesse pra mim, valioso para o tempo; fiel testemunha e metro do seu escorrer implacável. Desamparo o relógio sobre a mesa da cozinha e fecho a porta do quarto.

Então, o silêncio cresce, se fortalece . . . Silêncio agourento. É a gestação de um mau momento. Uma notícia ruim virá com o fim do silêncio. Notícia maldita, filha do silêncio e do tempo. Tempo e silêncio: estão acasalando-se contra mim.
Detalhe de obra de Francisco de Almeida, fotografada no Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, SP.
Detalhe de obra de Francisco de Almeida, fotografada no Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, SP.

Mas quando voltarão os sons, o burburinho da vida? Estará lá a vida? Pois logo ocorrerá este parto maldito em que nascerá um som e com ele uma notícia maligna.

Eis que meus tímpanos são feridos, vibram intensamente: uma badalada. Do alto da torre da igreja, o sino anuncia as duas horas da madrugada. Em resumo, é o mal se utilizando do badalo; seu profeta, mensageiro de sua chegada.

O silêncio retorna mais espesso, denso, grosso; silêncio profundo. Agora é só o som do coração angustiado a pressionar os tímpanos para fora. Mesmo o som das entranhas quer abandonar-me.

Silêncio . . .  silêncio! Solidão: a única companheira nesta agonia prévia à catástrofe.

A escuridão deste silêncio me envolve, busco refúgio no sono. As badaladas da madrugada, covardes que são, não ousariam buscar-me neste adormecer.

Ao raiar o dia, só o som terrível do telefone denuncia o parto temido. Então chega a notícia. Então pega pelo calcanhar, então me põem de ponta cabeça. Masco um naco de velhice. O gosto amargo pinicando o coração, infunde uma ruga no canto da boca.

É tempo de sofrer.

A lamparina se apagou

ainda cheia de azeite

O pavio grosso

desabrochado

O sopro da vida

o hálito do breu

se misturou

Apagou. Ela se foi.


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Áudio: trabalhos técnicos e paisagem sonora de Elias Vergennes – Rádio UEL.

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