UM FULANO DEREPENTE

A ocupação de espaços sociais move as pessoas nas suas escolhas e formas de vida.

Eu conheci um fulano que atendia pelo apelido de Derepente. Bom, no fim acho que era o nome mesmo, pois ninguém sabia chamá-lo por outra coisa. Uma espécie de mendigo que rondava nossas casas. Digo espécie, pois tinha um cubículo onde morava, nos fundos da oficina mecânica. Portanto, tinha um teto, mesmo que emprestado. Usava o sanitário e o banho da oficina. O banho, pouco. O guarda-roupas dele era o que ficava parado no nosso closet. A refeição, imagino que o malandro do Derepente desenhava o cardápio do dia, logo pela manhã, pois passava aqui ou ali, conforme lhe desse na telha, ou na programação. Sempre sabia de tudo. Era o jornal do local. Mas nunca vi fazendo fofocas. Só pra nos divertirmos, puxávamos assunto de política. Sempre tinha uma ideia sobre algo. A verdade é que por vezes, muito bem elaborada. Pra tonto, todos concordávamos que não servia. E era muito educado. Nunca batia nas casas. Ficava ali no portão, quieto, que tempo era o que mais tinha. Por vezes uma vizinha gritava, anunciando a figura. Tinha escolhido de almoçar ali na nossa casa. Talvez já conhecesse o cardápio do dia da semana, talvez reconhecesse pelo cheiro, vai saber. Depois, ele tomando café na caneca de metal, na sombra da mangueira, perguntei, Derepente porque você vive desse jeito? Parou a caneca a meio caminho da boca, ficou me olhando espantado, “que jeito que você tá falando”? Expliquei. Estranhou muito. Focou os olhos para baixo, meio pro lado direito, como se estivesse lembrando de algo. Tomou o último gole, pôs a caneca sobre o banquinho, passou a mão na testa suada, limpou na calça, na coxa. Levantou os olhos devagar e me encarou. “Olha, eu queria ser pastor. Nem vivia aqui, tava lá num outro lugarzinho, muito pequeno. Era menino. Disseram que já tinha pastor. Quis ser policial. Disseram que já tinha o Onofre, único policial do lugarzinho. Achei que não tinha lugar pra mim. Meu pai morreu. Já rapaz, comecei a andar por aí. Quando cansava arrumava um jornal velho pra ler, depois pra servir de coberta. Descobri que não tinha ninguém assim naquele lugar. Assumi o cargo. Depois ganhei o mundo, vim bater as costas aqui, no colchão que seu Chico me deu lá na oficina. Acho que cumpro bem meu papel. O de lembrar que vocês estão loucos, correndo o dia inteiro, brigando, xingando. Desculpe aí, mas preciso ir, a dona Cotinha disse pra passar lá no meio da tarde, que ela vai fazer broa de milho. Mas ela quer mesmo falar da gravidez da neta, sem marido, pôr pra fora. Mas a broa, é da boa”.

Comecei a prestar mais atenção nele. Seu Chico contou que o Derepente estava com câncer, no osso. Por isso mancava tanto. De repente, morreu o Derepente. Enterraram. Fui na 2ª feira, mandei fazer uma placa pro tumulozinho. Morreu o Derepente, pra nos alertar de que tudo é … de repente.

Áudio: trabalhos técnicos de Élson Ferreira da Silva.

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