BACURAU É AQUI!

Coloquei a moto pra fazer barulho, levantando a poeira da estrada, querendo almoçar em São Paulo. Fiz tudo certinho. Atravessei a rodovia Castello Branco, de rabo a cabo, mais ou menos respeitando as regras de trânsito. Os limites de velocidade, mais pra menos. Fui dar com os costados no bairro de Pinheiros, na casa da Aninha, encotrar o Lucas. Achei que estava em São Paulo mesmo. Mas tinha ido parar em Pernambuco. Vixi,  complicou né. Não é? Explico.

Nita Freire e Nilson Giraldi, SP, set/19

Fui ouvir a pernambucana Nita Freire falar da vida, sua e de Paulo, o saudoso marido, pernambucano, por quem ela ainda tem todo o amor que foi possível caber nesse mundo. Nem falo disso. Aliás, falo. Foi de amor que a Nita falou. Do amor do pensador, traduzido em educar o povo, respeitando cada qual, seus saberes. Depois, saído do bairro Perdizes, desço  a rua Augusta, ainda atordoado. Paro no BH para que um suco de laranja ajude a descer tudo o que não consegui deglutir da fala da Nita Freire. Agora entro a direita no meio da quadra. Caio em Pernambuco de novo, com uma placa me convidando pra ficar ali mesmo em Bacurau. A placa diz “se for, vá na paz”. É ficar. Escuro, sento na poltrona pra engolir esse Pernambuco, que é nordeste não, descubro depois de duas horas estonteantes. É Brasilzão mesmo. O menino do filme me explica que quem nasce ali é GENTE. volto pra rua Augusta. Agora não é São Paulo, nem é Pernambuco. É êxtase.  Sento de novo no BH e quase peço mesmo é uma cachaça pra embalar tanta coisa na cabeça,  tanto choro, tanto grito. Colocar as idéias pra dormir. Mas não dá.  Os gritos nem são só das idéias.  São do Brasil todo. Das ruas, das matas, das escolas, dos presídios, do inferno, que deve ser aqui mesmo nessa terra abençoada por Deus, ou deus. Nem peço a cachaça.  Melhor ligar a moto e fazer o caminho de volta pra casa, pra ver se me encontro. Tentar entender, no trajeto, aquela sensação que tive de que a Nita Freire é uma mãe,  uma ama de leite, que está aí pra acolher no seu colo e amamentar esse povo que se diz GENTE. Mastigar a ideia de que Paulo Freire e os diretores de Bacurau, o Kleber e o Juliano, estão é falando a mesma coisa que dizia o outro pernambucano, Virgulino,  vulgo Lampião,  que o jeito que precisa ser, está é na mão do povo, pois os que mamam nas tetas da Mãe Pátria não dão jeito, só engordam, seja de que cor, matiz ou partido for. Porcos cevados no leite repleto de nata, dos úberes pátrios.

Para nossa sorte, esses cabras pernambucanos todos, são mesmo, é do cangaço. Nossa salvação.  São 550 km de asfalto pra enfiar isso bucho a dentro até o cérebro, aí chego em casa, só não sei em que estado, em outro Estado.

Você não sabe do que estou falando né? Se sabe me diz, porque não sei também, mas vou deixar umas pistas aí abaixo. Vamos por elas, oxalá nos encontremos em alguma encruzilhada do caminho ou em alguma vala de defunto sem identificação.

Entrevista com Nita Freire

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