O EXÍLIO DA CAMISA CANARINHO

Há um mês fiz uma viagem ao exterior, ao quase vizinho Equador. Cheguei no aeroporto Mariscal Sucre, na capital, Quito às 10h da matina de domingo, horário local. Mas no Brasil já era hora do almoço, considerando as duas horas de diferença no fuso horário. Fui comer? Fui nada. Corri aos sanitários do aeroporto. Pela Janela podia ver o céu limpo das alturas de Quito e ao longe o vulcão Cotopaxi, com seu cume coberto de neve, majestoso. No sanitário, abri a bolsa de viagem, retirei a camiseta da seleção brasileira e, apesar do fresquinho da temperatura, vesti ela sem nenhuma blusa por cima e sai todo orgulhoso.

Vulcão Cotopaxi, Equador

Pode parecer um gesto banal, um brasileiro no exterior usando a camisa da seleção do seu País. Mas para mim não é. Já estive em quase uma dúzia de países e nunca havia usado a camisa canarinho. Até pra evitar que venham falar de futebol, assunto que desconheço totalmente. E por que estava tão ansioso para usá-la logo ao chegar neste destino? Porque não posso mais usá-la no Brasil sem que me qualifiquem como adepto ao pessoal do 17. Não sou 17, nem 13, ou qualquer outro partido, que me parecem tudo a mesma coisa. Nem do 35, o desconhecido Partido da Mulher Brasileira. Sou é de partido nenhum, de ideologia nenhuma, das que estão por aí.

E olhe que nem é só a camisa da seleção que foi tomada por esse grupo. Também a bandeira nacional, o hino, tudo. Se você fizer mencão a qualquer um destes simbolos, pronto, já está tachado de pertencer ao grupelho.

Mas por que estou escrevendo isto hoje, passadas algumas semanas do ocorrido? Por que ocorreu outro fato que me forçou a fazer um link com este da camiseta. Eu estava com minhas filhas e aproximou-se um garoto de seis ou sete anos. Perguntou se eu sou o avô delas. Sou o pai, respondo. Ele retruca que não. Que só posso ser o avô. Achei deliciosa a teimosia do garoto e perguntei o motivo da afirmação. “Oras, porque você é careca. O meu avô é careca, o avô do meu amigo é careca. Os pais tem cabelos, os avôs não tem. Se você é careca, só pode ser o avô”. Duas mães que estavam bem próximas, mantinham-se atentas à discussão do careca e do pirralho, com um meio sorriso na boca. Tive que concordar com o garoto. “Tá bom, então sou a avô delas”. Minhas duas filhas visivelmente estavam torcendo pro garoto, logo vi, pois ficaram felizes com a conclusão da discussão, embora saibam quem é o pai delas. O menino saiu satisfeito, as mães que estavam ali próximas, idem.

O que tem a ver o garoto com a camisa da seleção? É que achei que o raciocínio que nos impuseram sobre os símbolos nacionais é tão maduro, tão lógico, tão verdadeiro, quanto o raciocínio do garotinho de meia dúzia de aninhos. No final são só crianças querendo brincar de alguma coisa, nem que seja de algo parecido com o antigo banco imobiliário, ou seja, de governar um País.

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