FURNA DOS OSSOS.

Entrada da Gruta dos Sinos, Parque Ecológico Furna dos Ossos, Tejuçuoca CE.

Essa história da Furna dos Ossos começa à sombra de uma árvore que nos abraça e protege da força do sol nordestino. É a mangueira que fica na sede da banda dos meninos. O Tércio está ali sentado ao nosso lado, numa prosa de sombra, desapressada. O cheiro dos cajus invadindo os ouvidos para acompanhar a melodia da história que Tércio vai tecendo delicadamente. Num instante fala da Furna dos Ossos. O nome acende minha curiosidade. Furna dos Ossos, isso lembra cangaço, mortes, justiças, vinganças. Fico especulo. Tércio conta que é lá em Tejuçuoca, ali nos meios do Ceará. Nem ouvi a história, mas a vontade já diz às pernas que amanhã vamos lá. Passou desapercebido o resto que Tércio diz e disse. O corpo está aqui, mas já estou com a cabeça na Furna dos Ossos.

À noite pergunto na Caponga, mas ninguém sabe de Tejuçuoca, tampouco conseguem pronunciar direito o nome do lugar. Nem o professor conhece. Se ninguém conhece, melhor, mais interessante e menos turístico deve ser. E quanto menos turístico, mais verdadeiro o arruado. Vou lá, amanhã, pronto! Vai ser o que deus quiser e o que o diabo não conseguir evitar, que o diabo no sertão é outro, e o inferno nem é no mesmo lugar. Às vezes o inferno é no alto e o céu é embaixo, principalmente quando não chove. 

Às vezes o inferno é no alto e o céu é embaixo, principalmente quando não chove.

Se metemos estrada a fora e sertão adentro. A rodovia CE-253 já está de braços abertos na manhã cheia de sombras compridas que vão apontando o caminho a seguir, na saída de Cascavel. Logo, logo Guanacés acena um bom dia ao som da sanfona de ontem à noite que ainda reverbera pelas árvores, pelos muros da cidade. As sombras vão apontando Pacajus prum café da manhã na padaria da cearense de cara brava e olhos cheios de mel escorrendo pelas faces para fazer um sorriso doce. Em Acarape paro os olhos por um instante para fazer o sinal da cruz em frente à igreja que domina o cenário da manhã já radiante. As sombras se encolheram, medrosas, já estão abrigadas bem próximo aos pés. É rever Redenção, comprar umas bugigangas na feirinha ao redor da igreja e uns utensílios na Casa do Campo, chorar um descontinho pro Benedito. Só meus olhos escalam as centenas de degraus lá no morro, que as pernas mesmo, estas estão que só pensam na sombra e na Tejuçuoca. Simbora pelo serpenteado da CE-253. Dá Vila Areias com sua igreja pintada em creme, com detalhes em roxinho. As cores lembrando o corpo e o sangue de Cristo. Vila Santana repleta de bananeiras e adespois a Vila Granja, até chegar com os olhos cheios de paisagem serrana, no arco de Nossa Senhora de Fátima que nos recebe em Pacoti, à beira do rio, na hora de pastar um pastel, enquanto observo o celeiro a costurar o couro da sela que vai abrigar o rabo do cavaleiro. Daí é mais um serpentear até aterrissar os olhos nos passarinhos que o Lucivaldo pintou nas paredes do mosteiro em Guaramiranga. Oba, consigo uma miniatura do pássaro que dá nome à cidade, pintado pelo Lucivaldo. A tela vai para casa, pro Paraná, e o guaramiranga vai cantar na minha parede. Pena é o artista de tanto talento vendendo na feira pinturas por menos que o suco da esquina.

Agora é descer a serra. Em Campos Belos estou meio perdido. As sombras não apontam o caminho, para onde ir, sei não. Sei e não sei. Pergunto pro seu Batéa, que na calçada, descansa esticada na cadeira a perna edemaciada. Mas ele não responde. Manda tomar assento. Não me sento. Para ele, tanto faz. Conta a sua vida, inventa sua história. Fala da estrada que desce a serra, que salvou a vida de todos os moradores, pois foi por ela que vinheram os caminhões pipa repletos de água, para aplacar a seca do lugar, senão tinha morrido é tudo, de sede. Agradece ao político que talvez tenha enriquecido um pouco mais com a pavimentação da descida a preço de subida. Diz para não ter pressa, para ouvir com calma, que o sertão não vai a lugar algum. Por último, pergunto se a estrada até Tejuçuoca é boa. Responde que até General Sampaio ele garante, para lá de General nunca foi não. Fé na sacola e sigo pela rodovia CE-020, logo, logo pegar a direita. Chego na saída e é novamente a CE-253. Vixi, não entendi nada, mas também tem nada para entender não, diria o seu Batéa.

Na parada da beira da estrada vamos tomar um São Geraldo e comer um ovo cozido bem corderosinha. Pergunto pro Rogério o que tem de bom por aqui. Dá uma gargalhada com quase todos os dentes e aponta a parede ao lado onde um cartaz anuncia a 10ª Parada Pela Diversidade de Paramoti, com a escolha da miss gay regional desse ano. “Uma noite de luz, luxo, brilho & glamour”, anuncia o cartaz. MEDO!!! Cara, é o Ceará. Se não tiver aqui, é porque não inventaram ainda. E se não inventaram ainda, pode ser que aqui já exista. Quando passamos por Paramoti não foi a miss gay que nos recebeu, mas a santa, trepada sobre o portal da cidade. Amém para todos os Jesus, os heteros e todos os outros.

Em Paramoti, uma barraca com a placa: CANTINHO DOS POLÍTICOS – Daqui pra frente PAZ, E AMOR. Deve existir uma boa história por trás dessa placa, mas, ufa, finalmente um cantinho dos políticos que reconhece que até aqui não foi paz e amor ou Paz, e Amor. Foi mesmo é … Preencha você mesmo esse pedacinho aí, que eu estou indo é para a tal Furna dos Ossos. Por fim, a cidade, capital do bode, Tejuçuoca. Ainda bem, que meus olhos já estão vazando tanta paisagem.

Valentes guias da Furna dos Ossos.

O negócio é fazer poeira na areia fina até chegar ao parque de Furna dos Ossos, onde dois guias nos conduzem pelas trilhas secas em meio aos xique-xiques e mandacarus, com leitos secos de córregos e rios. Avisam que ali costumam avistar onças. Bom, pelo menos estamos com os guias, embora o fato de não terem mais de doze anos me coloca em risco com qualquer predador, pois seguramente correm mais que eu. Conta a lenda que nestas paragens se ocultavam cangaceiros e mais recentemente recebiam pistoleiros de poderosos da região, que por não saberem ler, vinham até as furnas com um bilhete onde estava escrita a sua sentença de morte. Queima de arquivo da época. Achei cômico o cabra brabo viajar quilômetros e quilômetros a cavalo, cuidando da folha de papel com as garatujas escritas nela, sem saber do conteúdo. Com essa história de ter onça, me senti reconfortado, servir de jantar numa antropofagia oncística, é uma forma menos ignorante de morrer, e muito conectada com a natureza, natureza da onça, no caso.

Fantásticas as grutas e furnas do local. Mas na volta resolvo parar na comunidade Rapina. Senti que algo de interessante havia ali. Bem em frente à casa da dona Adalgisa o santuário, local de oração, caiada recente para comemorar o dia de N.S. Aparecida. Promessa da moradora há 30 anos atrás, de construir e manter um local de oração e fazer acontecer a festa no 12 de outubro de todos os anos. Paga de uma promessa para sarar o filho com leucemia. Vai saber o que chamavam de leucemia naqueles tempos e lugares. Uma hora depois já sou parente da matriarca. Na saída ela pergunta, séria, o que estamos fazendo tão longe de São Paulo, tão longe do Paraná. A resposta sai quase com vontade própria: fazendo nada não, dona Adalgisa, só fugindo uns dias daquele atraso lá do Sul, buscando gente de verdade. Bora enfeitar os mandacaru de poeira, tchau pra Furna dos Ossos.

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