DUAS TATURANAS.

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DUAS TATURANAS.
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Num mundo sem espaço para o sofrimento e na exigência de uma felicidade constante, vamos tentando driblar a morte.


A decoração da festa está linda. Flores naturais, muitas, muitas. Sentadas ao redor das mesas do jantar, a mulherada aguarda ansiosa, a entrada da noiva. Os homens vão emendando as piadas e as conversinhas miúdas. Sinto-me aliviado com a composição da mesa, pessoal de sempre, sem surpresas. Aí chega uma tia da noiva, a famosa tiazona que gosta de organizar tudo ao jeito dela. Traz a tiracolo um casal de parentes, do Rio de Janeiro ou algum buraco da baixada fluminense, não entendi. Pronto, a mesa ficou completa com eles utilizando as duas últimas cadeiras. Ainda bem que estou do outro lado da mesa, não vou precisar ficar de papinho. Mas nem sei se isso é bom. De frente não tenho como deixar de observar os dois. A fulana está que é um fake. Deve ter sofrido umas dez plásticas na cara para esconder as cinco décadas que foram malhando o couro dela. O pior é uma tatuagem de sobrancelhas. Meu, parece que tem duas taturanas grudadas na testa. O marido, com uma pintura no cabelo ralo que chega brilha. Também passou por umas plásticas no rosto e boca. Mas parecem ter sido feitas por um profissional melhor e com menos intervenção. Eu passo a mão pela minha careca e fico feliz com ela, bem raspadinha para o casamento.

Pronto, estragou a minha noite. Vou ficar esburacando o cérebro, tentando entender essa ânsia por se fazer parecer com 20, agora que se está aos 50 e tarará. Tento evitar esses pensamentos pedindo uma taça de vinho e encarando as flores à minha frente no vaso generoso. Funciona mais ou menos. Os meus olhos me traem e encaro a taturana, a transformer sorri para mim, simpática e sentindo-se jovem e linda. Volto os olhos pro vaso, percebo que nem todos os copos de leite estão na mesma conservação, embora sejam todos da mesma idade, ou da mesma colheita. Amanhã alguns estarão com essa tonalidade marrom bem avançada, enquanto outros vão conservar o imaculado branco. Mas todos vão fenecer, murchar e por fim serão atirados ao cesto do lixo. Será que é isso a causa de tantas intervenções, tantas plásticas no corpo? Negar a morte. Você vai dizer que as pessoas fazem as cirurgias para ficarem mais lindas. Ah é? Não é o que vejo à minha frente. Está mais para assustador do que para lindo o quadro que tento evitar de ver do outro lado da mesa.

Já na madrugada, ao despedir-me simpático do casal, o vinho ajuda meu pensamento e estou convencido de que precisamos fazer todo o possível para parecermos bonitos e felizes, esconder os vincos, as rugas que sugerem contração muscular, que remetem a sofrimento e dor. Negar a morte. Nesses nossos dias não há espaço para sofrimento e fim. Só há espaço para uma felicidade contínua, ininterrupta. E vamos disfarçando tudo o que disser o contrário. Ou tentando pelo menos.

É pena! Pensar sobre esse marrom que vai avançando sobre o alvo do copo de leite, talvez nos permitisse um melhor entendimento da vida, um viver mais autêntico e sem tantas ambiguidades, além de não espantar os outros com as plásticas baratas, né.

Áudio: trabalhos técnicos de Ricardo Lima.

http://www.uel.br/uelfm/audios/30242-30_-_DUAS_TATURANAS_-_20-02-2020.mp3

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