UM TAL DE NORMAL.

CALLE C
UM TAL DE NORMAL.
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Se já é difícil algo “normal”, numa situação de crise, piorou. O que sobra, então?


Caixa de Texto: Se já é difícil algo “normal”, numa situação de crise, piorou. O que sobra, então?

Está tudo bem normal, me diz o Lucas quando pergunto como estão as coisas. A ligação fica um átimo de segundo em silêncio. Aí pergunto que normal é esse, Lucas? Falamos por uns 15 minutos, desligo. Só a ligação, pois não consigo desligar do “tudo bem normal” do Lucas. Que raios é isso? Afinal, normal é conforme a norma, conforme o usual. Uma situação normal é aquela que ocorre sempre da mesma forma. Um cara normal é um cara igual a qualquer outro. Outro qual? Ocorre da mesma forma do que o quê? Que forma é essa que formata o normal? Ainda existe isso de normal? Existem pessoas, situações normais?

Não existe o normal, concluo depois de ver uns tufos de cabelos espalhados pela mesa. Um cadinho mais e vou ver neurônios misturados aos cabelos. Minha sugestão para o dicionário: normal é adjetivo para aquilo que existia, mas não existe mais. Sinônimo de passado. Podia ser normal ontem, hoje o normal é outro. Se é outro, não é mais normal.

O acelerado do mundo vai consumindo o normal rapidamente, normalmente. Era normal ouvir isso, falar aquilo, vestir assim, olhar daquele jeito. Não é mais. O normal não existe. Existiu, mas não existe. Não é o anormal que surge no lugar. Não mesmo. O normal é substituído pelo instantâneo. Agora é assim ou era assim, pois não dá tempo de descrever, que já mudou.

Isso num mundo acelerado e “normal”. Num mundo de ocorrências inusitadas, como uma pandemia, um acidente ambiental, um conflito armado, uma revolução social, aí então é que piorou. A realidade toda vai ruindo e instantaneamente, vem brotando uma realidade nova, que já está velha, desmancha-se instantaneamente para dar lugar a outra realidade.

Nem mesmo permite que fiquemos de espectadores, sentados, admirando o processo. Nos toma pela mão, ou pelo pescoço e nos envolve na sua dança incessante.

Está difícil ser uma pessoa nesta dinâmica “normal”. Melhor ser um artefato desta realidade. Ou dar um brado de guerreiro: vamos parar com essa m. toda.

E tem gente esperando o “normal” voltar ou tudo voltar ao “normal”. Senta, respira e … espera!

http://www.uel.br/uelfm/audios/30561-23abr_Um_tal_de_normal.mp3

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