TRENZINHO INQUIETO.

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TRENZINHO INQUIETO.
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Nosso pensamento vai ao vento, perguntando se em outros lugares nossos males poderiam não existir. Ou poderiam não existir aqui mesmo?


Na cidade onde vivo tem a parte de cima e a parte de baixo, separadas pela linha do trem. Quando ele cruza no seu flop-flop, flop-flop, naquele buzinaço de “sai da frente que estou passando”, fico ali parado sonhando com os lugares por onde este trem vai passar. É vagão e mais vagão, vagão que não acaba mais.

Piuí-piuí, flop-flop, flop-flop, piuí.  

Será que tem, lá no final da linha, um lugar onde as pessoas saem pela manhã com a certeza de voltar à tardinha? Será, um lugar onde tem uma água limpinha, numa mina toda rodeada de mata, pra gente tirar da cara o ardido do meio do dia?

Flop-flop, flop-flop, flop-flop.

Deve existir uma estação onde você desce e não ouve barulho de trovão na barriga das criancinhas. Sabe uma parada onde a criançada, na maior algazarra, corre pra escola? Toda aquela molecada com cadernos nas mãos, mostrando a lição antes do lanche e da bola-queimada. Garotada que tem pai e tem mãe, nome e sobrenome. Só não tem é flanelinha e garrafa d’água na esquina engarrafada.

Seu cobrador, este trem passa num lugar que todo mundo diz bom-dia e ninguém tem medo de gente? Um lugar  onde homem não é lobo de homem, não tem roubo, nem enganação? Onde a gente pode dormir com a porta aberta e sem sobressaltos no coração.

Piui-Piui!

Vá rapidinho trenzinho valentão. Vamos chegar neste lugar de onde as famílias não precisam fugir, buscando justiça, buscando dignidade, fugindo de guerra, de fome, de doença, fugindo de governo.

Flop-flop, flop-flop, flop-flop.

Uma parada na estrada de ferro, onde cor e religião não são de fato motivos de solidão. Corre ligeiro pra`quela estação onde todo mundo … todo mundo de mãos dadas, é irmão.

As árvores vão ficando, vão ficando naquela subida danada. Os passageiros, passageiros na animação desmesurada. Queremos chegar. Queremos chegar. Aonde? Num lugar que ao invés de um monte de fumaça e poluição, tem um bonde com uma buzina que escorrega pelas ruas, macio como sabão. E a gente não fica fedendo diesel que lá todo cheiro há de ser refrescante e perfumado.

Tá vendo, o trenzinho vai passando, eu vou falando e você, fica só viajando, imaginando como aqui mesmo, podia ser bem bom.

Áudio: trabalhos técnicos de Élson Ferreira da Silva.

http://www.uel.br/uelfm/audios/29229-13_-_TRENZINHO_-_12-09-2019.mp3

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