A MORTE NA SALA DE ESPERA.

Cristalina
A MORTE NA SALA DE ESPERA.

Buscou tanto manter a própria vida que abriu mão dela.


Sala de espera de consultório médico é lugar para ficar com os olhos afundado no celular, numa revista, nem que seja no rejunte do piso. O que for, para não precisar conversar com ninguém. Desgraça é o único assunto do lugar.

Estou ali neste esconde a cara, entra um senhor, na dificuldade que os feixes musculares exigiam e na altivez que um restolho de imponência impunham ao seu corpo. Cumprimentou minha mãe efusivamente. Aí não teve escapatória. Acabamos eu e ele separados pelo constrangimento de falar da morte recente do meu pai e por uma cadeira com fita amarela e negra no encosto e uma folha de papel sulfite no assento, onde podia-se ler: não utilizar. Coisas de pandemia.

Seu Jaime, outrora Doutor Jaime, prestou serviços de advocacia em uma ou outra peleja jurídica da família.

Disse de modo abrupto: sabe, filho, não é só o seu pai que faleceu. Estou morto também. O silêncio a ocupar a cadeira entre nós, por cima do sulfite, enquanto ele buscava retirar algum nada imaginário, da ponta do dedo indicador da mão esquerda. Depois emendou que ficou com tanto medo da pandemia que isolou-se com seus livros e suas lembranças no apartamento de viúvo. Recebe as compras na porta, com luvas calçadas nas mãos, asperge tudo com solução desinfetante. É esse o contato mais íntimo que mantêm com a humanidade. Nem medo da doença, medo da morte mesmo. Os filhos e netos, por sorte ele já havia aprendido a usar as videochamadas pelo computador, graças à filha que mora no Canadá.

Agora, meses de confinamento, descobriu que buscou tanto manter a própria vida que abriu mão dela. A ponto de ter aceitado de deixar de viver tudo o que ela poderia ter-lhe proporcionado neste últimos meses. Hoje, pela primeira vez, sai do apartamento para vir ao médico, esse sacerdote que provavelmente lhe ditará um veredito de morte. Claro que não assim, de supetão. Vai pedir uns exames, receitar uns medicamentos. Novos exames, novos medicamentos e o tempo irá se encarregando de comer o que resta de não vida no seu viver.

Agora o silêncio nem ousa sentar-se na cadeira vazia. Fica em pé a nos olhar atento. Eu não sei o que dizer. Ele já disse o que tinha a dizer. Por sorte a secretária foi quem interrompeu: dona Zelinda, vamos entrar. Acompanhei.

Áudio: trabalhos técnicos de Elias Vergenes, UEL FM.

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